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Agro brasileiro usa defensivos demais? Clima e escala ajudam a explicar

Fonte: CNN Brasil (feed)

A safra 2025/26, que termina em abril, deve alcançar 2,6 bilhões de hectares tratados com defensivos agrícolas no Brasil, uma alta de 6,1% em relação ao ano anterior, segundo projeção da Kynetec Brasil e do Sindiveg (Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Defesa Vegetal). Mas por que o Brasil usa tantos defensivos? Usamos mais que os outros países? Embora o Brasil figure entre os maiores consumidores de defensivos agrícolas em termos absolutos, análises comparativas indicam que o uso relativo está alinhado à média global . Leia Mais Biológicos ganham competitividade e avançam no campo. Produção brasileira de soja deve somar 184,7 milhões de toneladas Preço de fertilizantes sobe e piora relação de troca no campo Segundo dados da FAO (Organização Mundial para a Agricultura da ONU) e do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) compilados pela CropLife, o país utiliza, em média, 7,4 quilos de defensivos químicos por hectare , considerando múltiplas aplicações ao longo de diferentes safras. Para efeito de comparação, a França registra média de 13,7 quilos por hectare. Condições climáticas influenciam demanda O uso de defensivos no país está diretamente relacionado às características climáticas . Diferentemente de grandes produtores agrícolas de clima temperado, como Estados Unidos e países europeus, o Brasil possui clima tropical e subtropical, com calor e umidade que favorecem a proliferação de pragas, fungos e doenças, explica a pesquisadora Dalilla Rezende, do Instituto Federal do Sul de Minas Gerais. Essas condições reduzem o efeito natural de controle observado em regiões frias, onde o inverno interrompe ciclos biológicos de pragas. Como resultado, há maior necessidade de intervenções ao longo do ciclo produtivo. Segundo Dalilla, essa característica torna inadequadas comparações diretas com países de clima temperado. “ A gente não pode, de maneira grosseira, comparar produtos que a gente aplica aqui com um país que não tem um clima parecido com o nosso. É injusto fazer isso ”, diz. O chefe-geral da Embrapa Territorial, Gustavo Spadotti, explica que há uma percepção recorrente de que o Brasil utiliza produtos proibidos no mercado europeu. Spadotti pondera, no entanto, que a ausência de determinados defensivos na Europa pode estar associada à inexistência de algumas culturas naquele continente. Como exemplo, cita a mandioca, cultivo presente no Brasil, mas não comum em países europeus, o que demandaria o uso de herbicidas específicos. O pesquisador também destaca que a liberação ou restrição de produtos não ocorre exclusivamente em função do nível de toxicidade, mas considera fatores como necessidade agronômica e contexto produtivo. Ele acrescenta que há casos de substâncias autorizadas na Europa que não são permitidas no Brasil, indicando que os marcos regulatórios variam entre os países. Além disso, o Brasil conta com múltiplas safras em um mesmo ano, como no caso do milho, que tem três safras. Também por este motivo, há um maior número de aplicações. Papel dos defensivos na produção Defensivos agrícolas — também chamados de agrotóxicos, pesticidas ou produtos fitossanitários — são utilizados para controlar pragas, doenças e plantas daninhas . Quando não controladas, as pragas podem interferir na produção, processamento, armazenamento, transporte ou comercialização de alimentos, produtos agrícolas, madeira, rações, fibras e energia. Estimativas da CropLife apontam que as perdas causadas por pragas e doenças podem chegar a 37,5% antes da colheita , o que reforça o papel desses insumos na manutenção da produtividade. Segundo a entidade, os produtos evoluíram ao longo do tempo, tornando-se mais eficientes, menos persistentes no ambiente e aplicados em menores quantidades . Dalilla observa que, apesar do avanço de alternativas, o controle químico ainda tem papel central na produção agrícola. “Hoje, para alimentar o mundo, não é possível depender exclusivamente de produtos alternativos ”, disse a professora, que se dedica justamente à pesquisa de técnicas com biológicos. Ao mesmo tempo, ela avalia que o setor caminha para a adoção de estratégias complementares , que incluam outras formas de controle. Contudo, a pesquisadora lembra que o desenvolvimento de novas moléculas demanda anos de pesquisa e altos investimentos . Uso adequado Apesar dos avanços tecnológicos, especialistas apontam desafios relacionados ao uso adequado. Dalilla destaca que os defensivos seguem critérios técnicos rigorosos de registro, que determinam culturas, doses e intervalos de segurança. No entanto, na prática, essas recomendações nem sempre são seguidas, como no caso da aplicação em culturas para as quais o produto não é indicado. Outro ponto de atenção é o uso excessivo ou indiscriminado , que pode favorecer o desenvolvimento de resistência por parte de pragas e patógenos, reduzindo a eficácia dos produtos ao longo do tempo. Alternativas e manejo integrado Pesquisas indicam avanço na adoção de estratégias complementares ao controle químico. Entre elas está o manejo integrado de pragas e doenças , que combina diferentes ferramentas para aumentar a eficiência e reduzir impactos. O mercado de insumos biológicos no Brasil atingiu, em 2025, o maior patamar da série histórica, com R$ 6,2 bilhões em valor de mercado, um crescimento de 15% em relação ao ano anterior. Os dados são da plataforma CropData, da CropLife Brasil. A área tratada também apresentou crescimento, de 28%, alcançando 194 milhões de hectares. Na academia, pesquisas também buscam encontrar alternativas mais sustentáveis para um uso que não irá substituir completamente o uso de defensivos químicos, mas complementar e contribuir para a redução das aplicações. A equipe de Dalilla no Instituto Federal realiza testes, por exemplo, com o uso de extratos naturais, como própolis para conservação pós-colheita de frutas, biofertilizantes à base de algas no controle de doenças do cafeeiro e aplicação de nutrientes em baixas concentrações associados a fungicidas. Também há pesquisas com agentes biológicos para o controle de nematoides, especialmente em culturas como o feijão. A avaliação é de que a combinação de diferentes estratégias tende a ganhar espaço, com foco na eficiência produtiva e na redução de impactos ambientais.