Autismo na adolescência e vida adulta expõe lacunas no cuidado e inclusão
O avanço no diagnóstico precoce do autismo transformou a realidade de milhares de famílias no Brasil, ampliando o acesso à informação e às intervenções ainda nos primeiros anos de vida. No entanto, esse progresso trouxe à tona uma nova etapa que ainda não recebe a mesma atenção, já que essas crianças cresceram e hoje chegam à adolescência e à vida adulta carregando desafios que vão muito além do que tradicionalmente se discutia. No Dia Mundial de Conscientização do Autismo, é importante falar nesse assunto. Questões como autonomia, identidade, relações sociais, saúde mental, sexualidade e inserção no mundo adulto começaram a ocupar o centro das preocupações, enquanto famílias lidam com uma dúvida recorrente sobre o futuro e a capacidade de seus filhos de conquistarem independência. Essa preocupação é legítima e reflete as barreiras que continuam presentes ao longo do desenvolvimento, especialmente quando o suporte diminui com o passar dos anos. Leia Mais Intervenção precoce poderia evitar até 50% dos casos de autismo, diz estudo Genética pode influenciar idade do diagnóstico de autismo, aponta estudo Fim do espectro? Cientistas propõem novo modelo para o autismo Quando crescer exige novas respostas Na infância, muitas famílias contam com redes de apoio mais estruturadas, com acesso a terapias, acompanhamento escolar e orientação especializada. Com a chegada da adolescência, esse cenário se torna mais complexo, as demandas sociais aumentam e comportamentos desafiadores podem se intensificar, impactando diretamente a aprendizagem, as relações e o bem-estar emocional quando não são compreendidos e acompanhados de forma adequada. Ainda assim, esses desafios podem ser trabalhados ao longo do tempo com intervenções consistentes e estratégias aplicadas também no cotidiano familiar. A adolescência é um período marcado por transformações intensas no corpo, no cérebro e nas relações sociais, no qual há uma busca crescente por autonomia, pertencimento e conexão com outros jovens. No entanto, no autismo, esse processo não acontece da mesma forma, já que habilidades sociais importantes, como a leitura de contexto e a adaptação ao ambiente, nem sempre se desenvolvem de maneira espontânea. Isso pode resultar em maior dificuldade de interação e, sem suporte adequado, aumentar o risco de isolamento social e sofrimento psíquico. A ciência já demonstra que habilidades sociais , autonomia e regulação emocional podem ser desenvolvidas ao longo da adolescência, especialmente com intervenções baseadas em evidências, como a Análise do Comportamento Aplicada, desde que adaptadas à realidade dessa fase da vida. O desenvolvimento, porém, não depende apenas da intervenção, mas também de fatores como linguagem, funções executivas e habilidades adaptativas, o que reforça que não há um único caminho ou previsão possível a partir do diagnóstico. Na prática, o que se observa é que o aprendizado nessa fase precisa fazer sentido para o adolescente, o que torna o vínculo, o interesse e a conexão elementos centrais para a evolução. A participação ativa da família, o alinhamento entre profissionais e escola, o ensino de habilidades sociais no dia a dia e o estímulo gradual à autonomia são estratégias que contribuem para trajetórias mais consistentes e menos marcadas por frustrações. Apesar dos avanços no campo da infância, muitas famílias ainda enfrentam um vazio de orientação quando os filhos chegam à adolescência, lidando com novas perguntas sem respostas claras e com um sistema que ainda não acompanhou essa transição. A formação de profissionais segue majoritariamente voltada para crianças pequenas, as políticas públicas são insuficientes e a inclusão social na vida adulta continua sendo um desafio concreto. O debate sobre o autismo precisa, portanto, acompanhar todo o ciclo de vida e ir além da conscientização inicial, ampliando o foco para a construção de autonomia, inclusão e pertencimento. O autismo não termina na infância e, por isso, as pessoas autistas não podem se tornar invisíveis à medida que crescem, sendo fundamental que a sociedade avance na criação de caminhos reais para o futuro. *Texto escrito pela psicóloga e neurocientista Mayra Gaiato (CRP: 06/80987), fundadora do Instituto Singular e com atuação na formação de profissionais e no apoio a famílias com base em práticas fundamentadas em evidências científicas Autismo: entenda os diferentes níveis, subtipos e tratamentos
