O mundo multipolar chegou para ficar — e a indústria de tissue precisa entender o que isso significa
Em vinte e cinco minutos de palco no Tissue World Miami 2026 , Jacob Shapiro, Diretor de Pesquisa da PerchPerspectives, não tentou consolar a plateia. Analista geopolítico e consultor estratégico que trabalha na interseção entre política global, economia e estratégia de negócios, Shapiro foi direto ao ponto: o ambiente de negócios que a indústria conheceu nos últimos quarenta anos acabou, e não vai voltar. A tese central de Shapiro é que o mundo entrou em uma era multipolar, e que isso não é um choque passageiro, mas a nova condição permanente de operação. “Nenhum de vocês nesta sala viveu em um contexto geopolítico multipolar”, afirmou o analista. “O último mundo verdadeiramente multipolar foi a década de 1890. O normal histórico é um mundo de grandes potências crescendo e caindo, de blocos regionais competindo. Sejam gratos pelos últimos quarenta anos. Vai ser diferente daqui para frente.” Para sustentar o argumento, Shapiro percorreu três eixos estruturais: a reversão da globalização nas cadeias industriais, a fragmentação da matriz energética global, e a perda relativa de hegemonia dos Estados Unidos como árbitro comercial. Os três convergem para o mesmo resultado prático: maior custo, maior complexidade e menor previsibilidade para qualquer cadeia de suprimentos integrada globalmente, o que inclui a cadeia de tissue. No eixo comercial, o analista usa a política tarifária de Trump como sintoma, não como causa. “Donald Trump está tentando usar a política comercial unipolar em um mundo multipolar. E se você quiser entender por que há tanta fricção na política externa dos EUA com o resto do mundo, acho que essa é a razão central”, disse Shapiro. O problema, na sua leitura, é estrutural: em 2024, a China já era o principal parceiro comercial da maioria dos países que em 2000 orbitavam em torno dos EUA. Ameaças tarifárias produzem efeito limitado quando o interlocutor não depende mais de Washington. No eixo energético, Shapiro descreve uma “multifragmentação”: diferentes regiões migrarão para diferentes matrizes, gás nos EUA, nuclear na Ásia, hidrogênio na Europa, o que significa que os custos de energia vão divergir por geografia, e a competitividade regional passará a depender cada vez mais de como cada bloco resolve sua equação energética de longo prazo. Para a indústria de tissue, as implicações são diretas. Cadeias de suprimentos que funcionaram sob a lógica da especialização global, celulose de um lugar, insumos químicos de outro, equipamentos de um terceiro, tornam-se mais caras e mais frágeis nesse ambiente. “Vocês têm cadeias de suprimentos frágeis que estão concentradas em um pequeno número de lugares ao redor do mundo”, alertou Shapiro. “Se algo acontecer politicamente ou relacionado ao clima, vão haver problemas.” O quadro é agravado pelo enfraquecimento do dólar. Shapiro não prevê o colapso da moeda americana como reserva global, mas adverte que variações de dez a vinte por cento nas margens já representam realinhamentos significativos para qualquer cadeia que compra insumos precificados em dólar. “Isso significa aumento dos custos de insumos em geral”, sintetizou. “Estou falando sobre compressão de margem.” A pressão, porém, não é só sobre custos. É também sobre o consumidor. Shapiro descreve com clareza o que chama de “economia em K”: os dez por cento mais ricos seguem consumindo e estão dispostos a pagar pelo premium; a base da pirâmide mantém demanda pelo produto mais barato. O que desaparece é o meio. “O meio está sendo esvaziado em todos os lugares, e eu não gostaria de estar pego morto no meio, independentemente do produto que estou fazendo”, disse o analista. Para o tissue, isso traduz uma dinâmica já conhecida no Brasil, mas que Shapiro sugere ser permanente, não cíclica. Há, contudo, um contraponto. Shapiro encerra com otimismo deliberado. Eras multipolares são voláteis, mas também abertas. Mercados emergentes com demografia favorável, crescimento de PIB per capita e custos de energia baixos representam oportunidades reais de expansão para produtos de consumo como o tissue, produtos que, em sua leitura, acompanham naturalmente o processo de enriquecimento de populações que ainda não têm acesso consistente a eles. Para os executivos brasileiros do setor, a mensagem de Shapiro pode ser lida em dois registros. O primeiro é defensivo: revisar a exposição da cadeia de fornecimento a choques de câmbio e de disponibilidade, sem presumir que a estabilidade dos últimos anos vai se repetir. O segundo é ofensivo: entender que o esvaziamento do meio da prateleira não é desvio temporário, mas movimento estrutural, o que exige definição clara de onde cada empresa quer competir, com que proposta de valor e para qual fatia de consumidor. Não há resposta errada, diz o analista implicitamente. Há, sim, risco alto de ficar no meio sem perceber.
