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O valor invisível da floresta

Fonte: CNN Brasil (feed)

Não há manchete nos jornais para a árvore que permanece de pé, nem urgência para o rio que continua correndo no mesmo curso. Durante décadas, o valor da Amazônia foi medido pelo que podia ser retirado dela — madeira, minério, terra. O invisível, aquilo que permanece intacto, raramente entrou na conta. Agora, começa a entrar. De forma silenciosa, técnica e ainda imperfeita, uma nova lógica econômica se desenha: a de que preservar pode valer mais do que destruir. E não como discurso, mas como fluxo de caixa, contrato, ativo financeiro. Leia Mais BNDES e Petrobras recebem 16 propostas para compra de créditos de carbono Fazenda prepara "terreno" para remunerar União com créditos de carbono COP30: BNDES mobiliza R$ 7 bi para setor florestal em dois anos Leia Mais IPAM propõe remunerar setor produtivo contra desmatamento legal BNDES seleciona fundos para investir até R$ 4,3 bi em projetos ambientais Re.green vence leilão florestal e marca estreia de créditos de carbono No centro dessa transformação está o mercado de crédito de carbono , um sistema que monetiza a redução de emissões e transforma a conservação ambiental em ativo financeiro. A Joias Ecológicas da Amazônia é uma das empresas de carbono que promete estruturar projetos socioambientais capazes de conectar comunidades da Amazônia ao mercado global. A diferença para as demais empresas do ramo é que 70% dos recursos comercializados como crédito de carbono voltam para as comunidades locais. Extrativismo positivo A primeira iniciativa da companhia é em uma área de 600 mil hectares , dentro de uma reserva extrativista na Amazônia, onde vivem cerca de 6 mil pessoas . Mas o projeto geral da empresa é atingir 2 milhões de hectares de floresta preservados ainda em 2026. O Brasil tem 109 áreas públicas elegíveis a esse tipo de projeto. A área é o Resex Médio Purus, uma reserva extrativista em terra pública, onde vivem comunidades tradicionais como ribeirinhos , seringueiros e extrativistas . “A escolha por essa área não foi por acaso. Nesses territórios, os direitos de carbono pertencem às comunidades, há escala e impacto social, sem a necessidade de depender diretamente do governo”, explica Pedro Plastino, que estruturou a Joias Ecológicas depois de ter trabalhado na Future Climate. O acesso à Resex Médio Purus exige horas de estrada, seguidas por até 12 horas de barco . Mas isso não assusta Plastino nem seu sócio Rodrigo Brandão, ex-BNDES, que trabalhou em parceria com o ICMBio por muitos anos. Tanto que ambos fizeram 109 reuniões ao longo de 8 meses para obter aprovação coletiva O racional econômico do Joias é direto, mas exige execução sofisticada. Cada projeto demanda cerca de US$ 2 milhões em investimento inicial , com um período de maturação de três a quatro anos até a primeira emissão de créditos. Durante esse tempo, não há receita. Apenas custo. Quando o projeto começar a gerar resultados, a division será 70% da receita para a comunidade e 30% para a empresa estruturadora . A expectativa desse caso concreto é de geração de aproximadamente 100 mil toneladas de carbono por ano . “Considerando preços estimados atuais entre US$ 15 e US$ 18 por tonelada , isso pode representar algo entre US$ 3 milhões e US$ 3,6 milhões nos primeiros ciclos de venda”, afirma Plastino. Quem compra o crédito? Esses créditos são comprados por empresas com alta emissão de carbono, como companhias de energia, mineração, aviação e grandes empresas de tecnologia, que precisam compensar suas emissões para cumprir metas ambientais ou compromissos assumidos com investidores. Parte dessas empresas também combina a compra de créditos com medidas internas de redução, como eletrificação de frotas ou uso de energia renovável. Mas esses números só fazem sentido quando conectados ao mecanismo que os sustenta, diz ele. O crédito de carbono nasce da diferença entre o desmatamento esperado e o desmatamento real . Se uma área projetava perder 200 hectares por ano , mas registra apenas 180 hectares , os 20 hectares preservados são convertidos em crédito. Esse cálculo é auditado por terceiros independentes e validado por entidades internacionais, em um processo técnico que pode gerar documentos de centenas de páginas e levar anos até aprovação final. Ainda assim, o sistema está longe de ser estático. “Mudanças recentes nas metodologias reduziram drasticamente a quantidade de créditos emitidos por projeto de patamares estimados anteriormente em 600 a 700 mil toneladas para cerca de 100 mil toneladas no novo modelo. Menor oferta, preços mais altos. Uma dinâmica clássica de mercado aplicada a um ativo ambiental”, explica o executivo. O executivo ressalta que o verdadeiro diferencial desse modelo não está apenas na engenharia financeira. Está na governança. “É preciso negociar com comunidades inteiras. O processo de entrada em uma área exige um protocolo chamado consulta livre, prévia e informada (CLPI) , que envolve reuniões presenciais com dezenas de comunidades, distribuídas em polos organizacionais”, afirma Brandão. Sem consenso, não há projeto. Estrutura para dar certo E a lógica não é apenas compensar emissões, mas financiar transformação local. E, para isso, três frentes principais estruturam essa estratégia. A primeira é a infraestrutura básica. Em muitas dessas áreas, ainda faltam elementos essenciais como água tratada, energia elétrica e acesso à internet . O capital gerado pelo carbono passa a ser direcionado para resolver essas lacunas — criando condições mínimas de desenvolvimento. A segunda frente é a governança. Comunidades organizadas em associações precisam lidar com fluxos financeiros inéditos. Isso exige mecanismos de transparência, controle e gestão. Em alguns casos, surgem cooperativas, auditorias internas e sistemas próprios de prestação de contas. A terceira frente, e talvez a mais estratégica, é a bioeconomia . “Produtos como açaí, castanha, cacau e pirarucu já fazem parte do cotidiano dessas comunidades. O problema não é produção, mas acesso ao mercado. Sem infraestrutura logística, a comercialização depende de intermediários que capturam a maior parte do valor. É isso que queremos transformar”, diz Brandão. Ele dá como exemplo, o que acontece na comunidade hoje. O quilo do pirarucu é vendido na origem por R$ 3 a R$ 4, enquanto chega a R$ 120 no varejo de São Paulo e ultrapassa esse valor em restaurantes. “Eles têm autorização para extrair até 500 toneladas por ano, mas só tiram entre 180 e 200 toneladas porque não têm compradores e logística. Vamos estruturar isso, por exemplo, incentivando a comunidade a ter um barco com freezer”, afirma. Comércio de commodities Portanto, o próximo passo da Joias Ecológicas é montar uma empresa de bioeconomia para comercializar commodities agrícolas e extrativas. Ao investir em transporte, armazenamento e conexão direta com mercados consumidores, o modelo busca eliminar intermediários e capturar valor localmente. Nesse ponto, o crédito de carbono assume um papel diferente do que costuma ser atribuído a ele. Em vez de ser o produto final, torna-se um mecanismo de financiamento . Um capital inicial que permite estruturar cadeias produtivas mais resilientes e duradouras. A aposta é que, no longo prazo, a bioeconomia seja mais sustentável do que o próprio mercado de carbono. “Afinal, enquanto o crédito depende de regulações e metodologias em constante evolução, produtos como alimentos e insumos naturais têm demanda estrutural.” Por trás desse modelo está also uma mudança de percepção sobre as próprias comunidades. Longe da imagem de desorganização, o que se encontra em campo são estruturas sociais complexas, capazes de planejar, executar e sustentar iniciativas de longo prazo. “Visitamos uma comunidade, com a qual pretendemos trabalhar, que tem um sistema de energia solar implementado com recursos próprios e organizado de forma coletiva. Os moradores estabeleceram uma contribuição mensal para criar um fundo de manutenção, prevendo a necessidade de reposição de equipamentos após alguns anos. É muito bem realizado o projeto”, conta Brandão. Ainda assim, os desafios são significativos. O mercado de carbono é recente, sujeito a mudanças regulatórias e questionamentos metodológicos. A necessidade de capital inicial elevado e o longo prazo de retorno aumentam o risco. E a dependência de articulação social torna a execução mais lenta e complexa. Queda de tarifa favorece uva do Vale do São Francisco